Comprar e vender empresas tornou-se um importante negócio nos países mais desenvolvidos. A possibilidade da sua realização com seriedade é uma oportunidade. Em Portugal os “Preconceitos” sociais estabelecem ainda fortes limitações que se têm vindo a esbater. Daí a pertinência em reflectir o tema.
O empreendedorismo não se pode compreender verdadeiramente sem referir o contexto sócio-cultural e político-institucional em que surge e se desenvolve (Schumpeter 1927, 1942). O primeiro deriva das condições sociais em que o empreendedor cresce, impregnado de valores e princípios que tanto o apoiam no seu desenvolvimento como o restringem em múltiplas vertentes. O segundo decorre da forma como a sociedade se organiza, reflectindo-se no relacionamento dos cidadãos com as instituições e entidades. Interessa aqui tratar o contexto sócio-cultural do empreendedor, visto no sentido dos «Preconceitos» sociais.
Tanto a sociedade como a família e os amigos impõem regras e princípios, absorvidos com maior ou menor profundidade, que implicam com o comportamento e facilitam ou constrangem a vida de cada um. A irreverência em certos contextos é compreendida e tolerada mas noutros é fortemente penalizada, de forma explícita ou induzida. Ora, o empreendedor é dotado de maior ou menor irreverência face a regras e princípios instituídos, alguém com certa propensão para correr riscos, dotado de energia «vital», auto-confiança e imaginação para ultrapassar dificuldades.
A criação e viabilização de uma empresa apresentam muitos riscos. Além do sentido de oportunidade exigem-se recursos adequados, apoios diversos e muita energia pessoal. O desenvolvimento do projecto obedece a fases específicas até chegar a adulto. São poucas as empresas que conseguem sobreviver e, neste caso, ajuda o conhecimento, maturidade e experiência do empreendedor, melhor se conhecer o negócio em que se aventura.
Uma séria dificuldade reside, nestes casos, na forma como se concorre e compete. Para concorrer têm de se apresentar condições que distingam claramente o produto e serviço propostos para que os clientes os adquiram. Contudo, para competir têm de dispor de recursos tangíveis e outros em qualidade e quantidade que lhe permitam resistir à disputa com os competidores. Por este motivo os projectos novos e respectivos empreendedores necessitam assegurar apoios externos de empresas com quem se aliam, por razões de mercado e de protecção de recursos e de relações pessoais que possibilitem antecipar ou facilitem a resolução de dificuldades.
Em muitos casos e neste âmbito, joga papel essencial o apoio da família e dos amigos, tanto mais quanto disponham de conhecimento ou algum domínio da actividade empresarial e propiciem atitudes positivas perante a assunção do risco empresarial, numa sociedade que penaliza fortemente o insucesso, através de recriminações e da segregação social, com efeitos negativos a nível pessoal. Compreende-se, então, que os estímulos positivos e incentivos da família e amigos próximos, neste quadro social, são então factores determinantes para o sucesso.
Empreender não significa apenas criar algo de novo. Adquirir uma empresa ou impulsionar um projecto já existente e assegurar-lhe o rumo, visando cumprir o seu objectivo é também empreender. Daí que empreendedor seja também alguém dotado de criatividade, capacidade de risco e com energia para assegurar que um projecto se desenvolva. Exige-se que se perceba bem quais e de que forma mobilizar os múltiplos factores que interagem e são necessários, em cada momento, para a realização do objectivo.
Na economia de mercado ser empreendedor exige capacidade para adequar os recursos às necessidades de clientes ou consumidores e a percepção dessas necessidades para que os recursos sejam os requeridos. Tomar conta de uma empresa que se adquire, por vontade própria, é da maior importância.
Este tipo de empreendedor nas sociedades mais desenvolvidas tem um papel de primeiríssima importância. Normalmente, trata-se de alguém com conhecimentos e experiência em certo negócio ou actividade desejosa de realizar projecto semelhante, por conta e risco, mas não pretende correr o risco acrescido do iniciar.
Ou, alguém que em certa fase da sua vida profissional e pessoal pretende mudar de vida, tornar-se independente e desenvolver um qualquer projecto empresarial por entender dispor de experiência de gestão e pretender aproveitar relações pessoais privilegiadas e conhecimentos visando a realização pessoal.
Ou, alguém que se reformou, ainda em idade activa, que percebe a oportunidade da sua vida na aquisição de uma empresa, por se achar com capacidade e aptidões para desenvolver esse projecto empresarial. Ou, alguém que após um percurso de formação de nível elevado deseja aplicar os conhecimentos obtidos e aptidões pessoais numa empresa já existente que pretende adquirir.
São diversas as razões que numa sociedade desenvolvida justificam a importância do aparecimento e desenvolvimento de um mercado de compra e venda de pequenas e médias empresas.
Percebe-se, por tudo isto, que os chamados «Preconceitos» sociais fazem pouco sentido. Têm a ver, sobretudo, com o contexto social e cultural envolvente e com os constrangimentos de ordem pessoal despropositados, em muitos casos daí decorrentes, e que se devem ultrapassar. As empresas são projectos humanos que se criam, desenvolvem, maturam e morrem. Trata-se do ciclo de vida similar ao de um produto.
Neste quadro, salvaguardado as características e responsabilidades sociais, as empresas assemelham um produto. Também, relativamente aos produtos, os criadores estabelecem, muitas vezes, uma séria relação afectiva e emotiva que os torna dependentes do objecto criado, que afecta a separação. O mesmo acontece, em geral, quando se vende uma empresa que se criou ou que pertence à família.
Será que as empresas não podem vender-se e comprar-se? Claro que podem, mas é preciso encontrar alguém interessado em vender a sua empresa e alguém disposto a comprar. Para isso nada melhor que estabelecer um mercado próprio. Transaccionar empresas é um negócio e um desafio, mas uma grande oportunidade para muitos empreendedores.
Como tudo na vida o negócio de compra e venda de empresas obedece aos princípios e valores que regem as partes contratantes. Contudo, negociar uma empresa exige conhecimentos específicos que possibilitem avaliar o património e estabelecer um valor de goodwill, com base nos quais se negoceia o preço. O envolvimento de especialistas facilita o processo e confere confiança.
O projecto “TRANSACT PME!” tem por missão proporcionar condições técnicas que incentivem empresários a considerar a venda da sua empresa como uma oportunidade de negócio e, assim, promover e facilitar a transacção de PME em Portugal.
Lisboa, 21 de Março de 2007
J. Augusto Felício
Professor do ISEG e Presidente do CEGE

0 comments:
Enviar um comentário